Se existe um assunto que gera polêmica – ou no mínimo divergências – é o preço médio. Para alguns investidores, essa é uma técnica proibida, e o simples fato de sugerir tal estratégia já indica que alguém não sabe direito o que está fazendo. Para outros, trata-se de uma forma consciente de ajustar o preço de entrada em um determinado ativo e teoricamente aumentar as chances de sucesso em um longo prazo.

Ambas as formas de pensar podem estar corretas, as duas tem seus pontos positivos e negativos de convencimento e na prática, não há uma unanimidade. Tudo depende muito mais da pessoa que está executando tal estratégia do que da estratégia em si.

Antes de mais nada, preciso explicar o que é e como funciona a estratégia de fazer preço médio.

Entendendo essa estratégia

Imagine que você compra um ativo qualquer. Vou usar o Bitcoin como exemplo, por motivos óbvios, mas isso vale para qualquer ativo de renda variável: ações, ouro, dólar, euro, petróleo, ferro… Basicamente qualquer coisa que tenha um preço variável ao longo do tempo. Pois bem: você compra um Bitcoin por 10 mil dólares, acreditando que no futuro ele vai chegar aos 100 mil dólares. Mas o Bitcoin cai para 9 mil dólares. Nesse momento, você precisa de uma recuperação de mais de 10% para empatar seu investimento, pois 9 mil + 900, que é 10% de 9 mil, daria 9.900. Assim você ainda estaria em prejuízo de 100 dólares.

Ao perceber a queda e ainda acreditando em uma valorização de longo prazo, você compra mais um Bitcoin, dessa vez por 9 mil dólares. Isso faz com que o seu preço médio de compra seja reduzido de 10 mil dólares (a sua primeira compra) para 9.500 dólares (a média de preço entre sua primeira e sua segunda compra). Dessa forma, uma valorização de 10% já te traria um lucro de 400 dólares por Bitcoin comprado.

Em teoria, a estratégia parece fazer total sentido. Você abaixa o preço médio de compra do seu ativo e passa a precisar cada vez de menos valorização para recuperar seu aporte e passar a ter lucros. Mas preste atenção: a frase anterior começa com “Em teoria…”

Onde mora o perigo?

Aqui entra o principal argumento de quem abomina essa estratégia: para que ela dê certo, você precisa ter certeza de que terá caixa para continuar comprando o ativo enquanto ele cair – e seguir comprando sempre que ele cair – para descer seu preço médio de compra. Em um bear-run, que é como chamamos os longos períodos de baixa em um determinado mercado, isso pode ser extremamente perigoso. Você se programa para gastar X, e alguns meses depois já gastou 2, 3 ou 4x e o mercado continua negativo. E aí? Até aonde faz sentido continuar se “afundando”? Até quando vai continuar fazendo sentido você comprar um ativo que está em plena queda, sem sinais de recuperação em curto ou médio prazo?

Por isso, é preciso ter muito cuidado para realizar esse tipo de tática. Pegando novamente o exemplo do Bitcoin, se você acredita realmente que em um longo prazo ele irá se valorizar e será cotado por muito mais do que hoje (10, 15, 20 vezes mais do que os atuais 10 mil dólares), você pode se sentir mais seguro em comprar sempre que houver grandes quedas, pois estará fazendo um preço médio mais baixo do que o “normal” sem se importar muito com alguma variação pontual.

Porém, se você não acredita que o ativo em que está operando irá se valorizar no longo prazo, às vezes faz mais sentido realizar o prejuízo hoje do que adiar e possivelmente aumentar esse prejuízo no futuro.

Descubra o seu perfil

Como falei, o uso e sucesso da estratégia depende muito mais da pessoa em que estiver operando e de como ela se relaciona com o ativo em questão. Para pessoas com objetivos de longo prazo e que acreditam no papel/moeda/ativo, e que possuam disponibilidade de caixa para seguir aportando, pode ser uma excelente forma de se proteger. Para quem tem objetivos de curto prazo e pouca relação estratégica com o ativo investido, pode ser perigoso. O mais importante aqui é identificar o seu perfil e como sempre, fazer testes com valores pequenos. Assim, um possível erro doerá bem menos no seu bolso!