Um bem fungível é algo móvel que pode ser substituído, trocado por outro da mesma espécie sem prejuízo para as partes. Uma dívida de arroz branco tipo 1 pode ser quitada de forma fácil pois não há uma característica exclusiva determinante. Um Iphone 8 64gb novo também pode ser considerado um item fungível.

Não podemos afirmar o mesmo da viola Stradivarius Macdonald produzida em 1719 avaliada em USD 45 milhões. Trata-se de um item feito por um artesão alguns séculos atrás que depende de um rigoroso processo de análise para avaliar sua preservação e qualidade.

Todo dinheiro é fungível?

Fungibilidade é uma das qualidades fundamentais para qualquer coisa que pretenda ser utilizada como moeda de troca. Imagine comprar uma barra de ouro e descobrir que a pureza está abaixo dos 99,99% estabelecidos pelo padrão de mercado, ou ter suas cédulas de dinheiro invalidadas por manchas de tinta após arrombamento de um caixa eletrônico?

O próprio mercado irá extinguir o uso de itens que não apresentem esta característica que permite o livre comércio deste meio de troca. Se os grandes consumidores definirem que o petróleo extraído da Venezuela não pode mais ser comercializado, imediatamente o mesmo perderá grande parte do valor. Isto só é possível pois a composição do minério é única para cada região.

Impacto nas criptomoedas

Na teoria, uma moeda digital, seja ela Bitcoin, Ethereum, Ripple ou qualquer outra, deveria por sua própria natureza, ser um bem fungível. Afinal de contas, não há grande diferenciação numa sequência de números em um banco de dados descentralizado.

No entanto, algumas firmas de monitoramento de ativos digitais estão se especializando em rastrear algumas transações. Por exemplo, as moedas Ethereum oriundas do recente hack da exchange Upbit na Coréia entraram numa espécie de “lista proibida” para negociação nas demais exchanges, grandes investidores e mesas de negociação OTC.

Embora não seja possível determinar quem é a entidade que está movimentando tais moedas, o blockchain é um banco de dados aberto onde todos podem monitorar e acompanhar cada transação, desde sua criação no ato da mineração até a última transação, endereço no qual as moedas encontram-se paradas.

Defeito ou funcionalidade

Esta “transparência” – vamos colocar entre aspas pois as transações utilizam pseudônimos, apelidos – pode parecer um defeito, mas na verdade é uma das características determinantes do blockchain. A possibilidade de auditar e rastrear cada moeda desde sua origem dá credibilidade e segurança ao sistema.

Existem alguns projetos como Monero (XMR) onde só os envolvidos na transação conseguem ver a quantidade. Já os demais usuários ficam sem enxergar os saldos de cada endereço ou número de moedas movimentadas. O lado negativo é que torna-se complexo e duvidoso auditar a quantidade total de moedas em circulação. Neste ouro artigo explicamos como é possível determinar o total emitido do Bitcoin.

Fungibilidade nas criptomoedas

Existem ferramentas que misturam moedas partindo de diversos endereços de forma que seja praticamente impossível determinar sua origem. Este processo é chamado de “mixing” ou “coinjoin” e atualmente é oferecido em algumas wallets como Wasabi.

Vitalik Buterin, fundador da Ethereum, declarou apoio a um projeto que faz esta mistura de moedas através de “smart contracts”, contratos condicionais. Ou seja, embora as criptomoedas não sejam fungíveis por natureza dado a possibilidade de rastreamento no blockchain, é possível implementar tal funcionalidade de forma opcional.

Reação dos governos

Este movimento das agências reguladoras e governos em oposição às criptomoedas de privacidade não é novo. Em Mai/2018 a exchange japonesa Coincheck foi obrigada a delistar Monero (XMR), ZCash (ZEC) e DASH por conta de força regulatória.

Em Mar/2019 presidente da comissão de finanças da Câmara dos Deputados da França, Éric Woerth, sugeriu a proibição de criptos focadas em privacidade. 2 meses depois a BitOasis conseguiu aprovação do regulador de Abu Dhabi e anunciou a delistagem de tais moedas.

Mais recentemente foi a vez da Coréia do Sul, após proibição pelo agente regulador internacional FATF. Aos poucos foram delistados das principais exchanges atuantes na região.

Performance destas moedas

Com exceção de ZCash (ZEC) que cedeu 83% em relação ao Bitcoin só nos últimos 18 meses, as demais moedas de privacidade estão bem alinhadas com Ethereum (ETH) e demais altcoins. No gráfico abaixo a linha (área) vermelha é a Ethereum.

Conclusão

Embora possa parecer um tema com menor importância, a fungibilidade, mesmo que opcional é fundamental para o sucesso das criptomoedas, ao menos como quesito meio de troca. Enquanto for possível “banir” moedas de circulação, há um sério risco de governos e/ou grandes entidades pressionarem as empresas e entidades reguladas a rejeitarem tais moedas.

O mercado não demonstrou pânico pela decisão de delistagem das moedas de privacidade em algumas exchanges reguladas, e provavelmente não deveria. Afinal de contas o sistema está funcionando conforme foi projetado: impedindo que sejam rastreadas ou tenham endereços “banidos” por parte dos usuários ou mineradores.

Os grandes projetos como Ethereum e Bitcoin caminham na direção de possibilitar o usuário utilizar serviços que praticamente impedem o rastreamento, criando a fungibilidade necessária quando necessário. Esta solução nos parece criativa e eficaz. E você? Qual a sua opinião? Utilize o campo de comentário abaixo que vamos adorar ouvir seu feedback. 


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