Aquele 19 de outubro de 1987 ficou conhecido como “Segunda Feira Negra”, após os mercados acionários presenciarem sua primeira queda superior a 20% na história. É necessário lembrar que os índices nos EUA haviam subido mais de 125% em menos de três anos.

O cenário parace – muito – com o que estamos vivendo atualmente. Mas existem algumas diferenças importantes. Vamos entender como, em 1987, tudo aconteceu.

Desta forma, tentar apontar um único “culpado” pela crise parece uma tarefa inócua. A verdade é que os governos haviam injetado liquidez através de pacotes de estímulo econômico para prevenir uma crise no início da década de 80. 

Em 1982 o desemprego havia atingido 12,5% na Inglaterra e 10,8% nos EUA. A quebradeira de bancos nos EUA foi tamanha que obrigou o governo a realizar um pacote de ajuda totalizando USD 870 milhões, equivalentes a USD 2,35 trilhões nos dias de hoje. 

Mas afinal, como aquela crise se compara com a atual? Estudando a história podemos tirar importantes lições para melhor entender o comportamento dos investidores em pânico durante períodos de crise. Por isso a BitcoinTrade mergulha neste tema, visando trazer informação de qualidade que irá lhe ajudar a navegar neste cenário. Siga a leitura, e se gostar, compartilhe nos grupos.

Minuto a minuto

Fonte da imagem: FED

Dois eventos ocorridos em 14 de outubro são apontados como estopins da crise: 1) proposta de lei que reduzia o benefício fiscal das fusões de empresas; 2) saldo negativo na balança comercial, afetando negativamente o Dólar e pressionando o governo a aumentar juros.

Percebendo a enxurrada de resgates nos fundos de investimento, alguns traders aproveitaram o período da abertura de mercado para se desfazer de suas posições. Os reguladores permitiram que houvesse um atraso nas negociações de forma a tentar estabilizar os mercados. 

O resultado foi um descasamento no preço do índice futuro e do mercado à vista, gerando ainda mais incerteza e tirando o incentivo dos compradores de ações para intervir naquele momento. 11 corretoras não tinham fundos suficientes para cobrir a margem de garantia necessária de 1 único cliente.

O Federal Reserve viu-se obrigado a intervir no mercado, injetando liquidez através de recompras de títulos e convencendo bancos a darem garantias para que as corretoras de valores não quebrassem. A intervenção direta com leilões diários durou algumas semanas.

Os mercados em Londres, curiosamente, haviam fechado mais cedo na sexta-feira 16 de outubro, devido a um ciclone extratropical que se aproximava da região. De qualquer maneira, na abertura daquela segunda-feira a queda em dois dias havia sido de 23%, igualando os índices norte-americanos.

A invenção do “circuit breaker”

Foi após este crash de 1987 que os reguladores passaram a exigir que as bolsas de valores implementassem limites de queda que travariam, ao menos temporariamente, as negociações de ações e contratos futuros.

Embora varie em cada país e mercado, usualmente ao atingir uma queda de 10% há uma trava que impede negociações abaixo deste valor por alguns minutos. Novas travas, usualmente mais longas, são instauradas ao atingir 12,5% ou 15% de queda. Em alguns casos há paralisação total da negociação.

Similaridades com os dias de hoje

Alguns analistas tentam até hoje colocar a culpa da queda acentuada nos robôs, algoritmos responsáveis pelos cálculos de risco. Talvez isso fosse mais verdade em 1987, quando os sistemas, além de rudimentares, nunca haviam experimentado uma volatilidade deste tipo.

Outro aspecto apontado como combustível para a crise em 1987 foi uma ação do governo norte-americano de corte de juros buscando uma desvalorização cambial, em linha com os comentários atuais do presidente Trump e consequente ação do FED, conforme imagem abaixo:

Na visão de Trump, e de muitos economistas tradicionais, a desvalorização cambial auxilia na exportação e estimula a produção doméstica. Embora isto seja verdade no curto-prazo, além de ser um jogo de soma zero, uma vez que os demais países provavelmente vão reagir da mesma forma, produz um efeito negativo no médio-prazo já que a importação de insumos fica mais cara.

Outro aspecto que apresenta grande semelhança com 1987 é o descolamento entre a performance dos mercados acionários – em bull market há alguns anos – enquanto a economia começava a apresentar sinais de fraqueza.

Repare no gráfico acima como a produção industrial (laranja) estagnou no final de 2018, e mesmo assim as ações de empresas medidas pelo S&P500 (azul) continuou buscando novas máximas.

Diferenças pra crise atual

Em 1985 havia sido realizado o “Acordo de Plaza” realizado pelas cinco maiores economias na época – EUA, França, Alemanha, Inglaterra e Japão – um esforço coordenado para desvalorizar o Dólar e reduzir o déficit comercial dos EUA. Dentre os principais compromissos estavam o crescimento não inflacionário e abertura comercial. 

Isto é exatamente o oposto do que estamos presenciando, com governos aumentando o volume de moeda em circulação para estimular economias e ao mesmo tempo incentivando a busca por fornecedores locais.

Outro fator que claramente diferencia ambas as situações foi o “Acordo do Louvre” realizado em fevereiro de 1987, no qual as grandes potências decidiram cortar gastos públicos e estancar a desvalorização do Dólar frente às demais moedas.

Os recentes anúncios de estímulos fiscais, pacotes de ajuda para empresas e até mesmo pessoas físicas ao redor do mundo indica que os governos não estão preocupados com endividamento, pelo contrário. A idéia deles é injetar liquidez a fim de estancar o declínio econômico causado pelo Coronavírus.

Conclusão

Embora haja muitas similaridades com a crise de 1987, especialmente o fato de se tratar de um “efeito rebote” após estímulos e pacotes salvaguardas realizados para combater um problema gerado muitos anos antes, não podemos afirmar que trata-se de uma situação análoga.

Da mesma maneira, não podemos afirmar que os ativos de proteção, por exemplo o ouro e títulos de dívida dos governos, vão se comportar da mesma maneira. Para o Bitcoin e as criptomoedas, a situação é ainda mais incerta, uma vez que esta é a primeira grande crise mundial que atravessam.

Veja aqui as principais diferenças entre ouro e Bitcoin, incluindo formas de negociação e armazenamento, além deste outro artigo onde falamos sobre a importância da diversificação, criando uma carteira de investimentos preparada para momentos de crise.


Sugestão: cadastre-se na BitcoinTrade e analise a performance do Bitcoin ao longo dos últimos três ou quatro meses. Você irá notar que as ações da B3 apresentaram uma performance igualmente negativa, no entanto sem um histórico de alta superior a 100% em apenas um ano como já ocorreu algumas vezes no universo das criptomoedas.