Muito se fala sobre como o bitcoin funciona, sobre o que é o blockchain, como funciona o sistema de mineração e muitos outros quesitos técnicos dessa invenção de Satoshi Nakamoto. No entanto, temo que para a maioria das pessoas não se sinta à vontade com uma série de termos que são apresentados nessa explicação. Até eu mesmo, como engenheiro, não gosto muito dessa abordagem porque me lembra as aulas mais chatas que tinha na faculdade.

Por isso, quando vou falar sobre bitcoin para as pessoas, me apego em contar o contexto histórico em que ele surgiu, assim como a real utilidade que uma moeda descentralizada, sem a necessidade de um órgão governamental e com número finito de unidades tem. Só depois de convencidas sobre essa primeira parte é que os detalhes técnicos passam a importar.

Se tem uma coisa que aprendi sobre vendas é que as pessoas compram com a emoção e não com a razão. Da mesma forma, sei que a única coisa que o ser humano aprecia quase que institivamente ouvir são histórias.

Por isso, no texto de hoje vou contextualizar como que o bitcoin surgiu da maneira mais lúdica possível que você pode entender.

Do que Wall Street é formada

Se eu desse um espaço para você falar o que deseja do fundo do seu coração que aconteça com a sua vida, o que viria a sua cabeça? Uma vida de férias eternas, sem ter que se preocupar em trabalhar? Uma melhor qualidade de vida do que a que vive hoje? 

A questão central não é nem o que exatamente você deseja, mas sim qual seria o principal facilitador para alcançar esses objetivos. Tenho certeza que na vasta maioria das vezes mais dinheiro poderia facilitar atingir esses sonhos que vieram a sua cabeça.

Se o seu desejo for morar na praia, com uma vida de férias eterna, o dinheiro poderia lhe comprar uma bela casa no litoral e lhe garantir luxo pelo resto da vida. Já se o seu sonho for mais comedido e quiser apenas uma qualidade de vida melhor, o dinheiro pode lhe permitir ter os melhores profissionais de bem-estar lhe auxiliando nesse processo.

No caso, o que você precisa entender é que, para grande parte dos jovens que desejam atingir seus sonhos o mais rápido possível, o dinheiro pode ser o principal objetivo de carreira. E existe um lugar mundialmente famoso que promete uma vasta quantidade de dinheiro para aqueles que podem doar suas almas para o sistema, o mercado financeiro, mais precisamente, Wall Street.

Ano após ano, os formandos das principais universidades dos Estados Unidos são apresentados e dragados para as empresas da simbólica Wall Street, em busca de bônus milionários alcançados por jovens de apenas 26 anos em seus primeiros anos nessas instituições financeiras.

Se à primeira vista, um salário de US$ 70 mil parece algo surpreendente para um jovem que acabou de se formar, a realidade é bem outra. As exigências da posição de trainee nas principais instituições financeiras, como estar sempre bem apresentável e sempre disponível para o chefe, aliado a rotina de mais de 12 horas diárias de trabalho e aos gastos de uma cidade cara, fazem com que o aparente estupendo salário sirva apenas para pagar as contas.

Todo o dinheiro acaba tendo que ser gasto com sapatos, roupas, engraxates, lavanderias, barbeiros, aluguel e alimentação. Virtualmente sobra muito pouco para esses jovens, que possa ser poupado, ou gasto em alguma extravagância. No entanto, o que faz todos continuarem dentro do sistema é a possibilidade de ganhar bônus na casa de US$ 2 ou US$ 5 milhões em seus primeiros anos após o processo de trainee. Mas não se engane, esse dinheiro que é pago só é distribuído aos funcionários se o próprio banco onde trabalham ganhar muito mais com os serviços prestados por eles. É aí que entra a nossa cadeia de incentivos cruéis que fizeram dos bancos os maiores causadores da crise de 2008. 

Imagine que a sua única chance de ganhar bônus dessa magnitude, seja gerando para o banco negócios 10 vezes melhores. E lembre que o banco é em grande parte um intermediário de negociações financeiras. A instituição faz com que dois lados de uma negociação não tenham que confiar um no outro, mas apenas nas cláusulas do contrato estabelecidas pelo banco.

De um lado temos os emprestadores de dinheiro e do outro os tomadores desse empréstimo. A cada negócio desse fechado, o banco leva os seus generosos nacos por intermediar essa transação. Logo todo o trabalho e esforço dos funcionários do banco é encontrar clientes que queiram fazer determinada operação e realizar a negociação para retirar uma parte em taxas.

Se um empregado do banco cria uma determinada operação nova e começa a angariar clientes e assim conseguir novas receitas para a empresa, ponto pra ele, ou melhor, bônus para ele ao final do ano. Por isso, pouco importa que tipo de negócio obscuro ou sem escrúpulos que é proposto para o banco intermediar, se ele estiver tirando o seu, tudo bem, segue o jogo, porque o dinheiro ao final do ano é o que manda nesse ambiente.

Claro que toda essa exemplificação é apenas uma parte do que acontece dentro das empresas de Wall Street. A operação completa de um banco e outras instituições financeiras é muito mais complexa e envolve muito mais áreas a serem abordadas, mas para o entendimento do contexto histórico no qual surge o bitcoin, essa explanação basta para entrarmos na crise que surgiu concomitante a tentativa de dinheiro digital que deu certo.

A Crise das crises

E a crise de 2008 é resultado dessa voracidade das instituições financeiras por criar operações financeiras para os seus clientes e consequentemente gerarem lucro para si. Talvez você só conheça a crise das crises, que quase levou o mundo inteiro para o buraco, como uma crise hipotecária, mas ela foi mais que isso. Quando a bolha imobiliária estourou, os bancos de Wall Street tinham criado tantas operações envolvendo esse mercado bilionário que o efeito cascata afetou a economia mundial.

Para explicar de forma simplificada como isso ocorria, basta entender como o setor imobiliário funciona nos Estados Unidos e em boa parte do mundo. Geralmente, a casa própria é o sonho da maioria das pessoas e por isso pode passar a ser a prioridade de algumas famílias em determinada época da vida. Geralmente a pessoa, vamos chamá-la de Júlia, deseja adquirir uma casa e não tem todo os recursos disponível para comprar à vista esse bem. Isso implica que Júlia, para concretizar seu sonho, deve tomar um empréstimo com o banco.

O banco, por sua vez, só vai aceitar realizar um empréstimo se tiver quase certeza de que ela pode pagar as taxas de juros ao longo da vida. Para isso existe um setor inteiro dentro dessas instituições que vai avalia o “risco Júlia” a partir dos seus históricos de outros empréstimos, condição de vida atual, emprego e muitas outras variáveis. Então a decisão de que Júlia será provavelmente uma boa pagadora, ou não, é feita e o empréstimo é concedido, ou não.

Essa preocupação acorre porque o dinheiro que está em jogo é o do banco, que não quer sofre no futuro com empréstimo a maus pagadores. Mesmo que exista a possibilidade de tomar a casa do proprietário em caso de inadimplência, não é desejo da instituição que isso aconteça e por isso, vários empréstimos são negados para aqueles que o banco julga potenciais inadimplentes.

Dessa forma, o mercado imobiliário tem um limite de lucratividade para o banco, já que o número de bons pagadores é igualmente limitado. No entanto, no momento pré-crise de 2008, o setor tinha apetite para continuar crescendo, já que os preços das casas sempre estavam subindo e isso saltava aos olhos dos bancos. Foi então que daquela máquina de incentivos para gerar negócios para o banco, alguém teve a brilhante ideia de repassar o risco que seria do banco, no caso de um empréstimo, para qualquer outra pessoa que quisesse assumi-lo.

A venda desse produto era muito simples para as pessoas que acompanhavam o mercado imobiliário. Mas para ficar tudo mais claro, vamos usar um exemplo e introduzir outras pessoas além da Júlia. O Luiz, que quer comprar uma casa, mas não consegue nem honrar o financiamento de um Playstation 4, e o Vinícius, que tem dinheiro sobrando na conta e quer investir. Mas também não vamos esquecer da Isabela, que é funcionária do banco e quer gerar taxas para o seu empregador.

A Isabela diz ao Luiz, que possivelmente pode conseguir um empréstimo para ele comprar a sua casa própria, mas precisa de tempo para isso. O Luiz todo feliz entrega o máximo de informações suas para Isabela, que logo de cara percebe que ele não terá condições de honrar os juros do empréstimo, por isso, nem tenta conseguir essa grana com o banco para o qual trabalha.

No entanto, ela conta ao Vinícius que tem uma ótima oportunidade de investimento para ele, totalmente livre de risco. Ele irá emprestar o dinheiro para o Luiz, que por sua vez vai mensalmente pagar uma prestação para o Vinícius, com juros. Isabela ainda informa que no caso de o Luiz não pagar, o Vinícius pode pegar a casa dele e vendê-la a preço de mercado. Além disso, a funcionária do banco informa que os preços das casas estão sempre subindo mês a mês e por isso o negócio seria ganhar ou ganhar. Vinícius entende o racional por trás do investimento e aceita o negócio com o banco. Então Isabela pega o dinheiro do negócio, tira o seu percentual e vai avisar a Luiz que ele pode comprar a casa agora.

Novamente estou tentando simplificar o exemplo do que realmente acontecia. Na verdade, não existiam pessoas emprestando a pessoas diretamente, o que o banco realmente fazia era criar um produto, conhecido como CDO (Collateralized Debt Obligation, ou Obrigação de Dívida com Garantia ou Colateralizada) para intermediar esses empréstimos de forma legal.

De um lado haviam vários “Luizes”, que tomavam empréstimos, e do outro vários “Vinícius”, que compravam os CDO, e tinham o direito aos juros do empréstimo concedido. No caso de uma inadimplência, eles poderiam ficar com os bens, as casas, daí o nome com garantia, já que essas serviam de garantia para o empréstimo.

Parecia que as instituições financeiras de Wall Street tinham encontrado o santo graal, ou a pedra filosofal dos investimentos, mas tudo era apenas bom demais para ser verdade, e de fato era. Isso porque, todo o discurso de operação livre de risco era pautado em duas premissas que não se mostraram válidas com o passar do tempo.

A primeira é que o fato de existirem vários tomadores de empréstimos diferentes, a probabilidade de todos se tornarem inadimplentes era baixíssima. A outra premissa, que garantiria o pagamento, caso a primeira falhasse, era de que o preço das casas continuaria subindo e no caso de inadimplência, bastaria vender as casas e reaver o dinheiro do empréstimo, ainda com um possível lucro.

No entanto, por se tratarem em sua grande maioria de maus pagadores, quando a inadimplência começou a se mostrar preocupante, todo o sistema ruiu. Quem deveria receber os juros dos empréstimos deixou de receber e na busca por vender as casas que eram a garantia, o mercado foi inundado de oferta, o que causou uma queda nos preços, fazendo com que tudo ruísse.

Isso aconteceu porque as vendas desses CDOs não aconteciam apenas no mercado dos Estados Unidos, o mundo todo havia comprado esses produtos devido ao lobby excessivo que era feito sobre a segurança e solidez do mercado hipotecário local. Rapidamente a economia mundial sofreu os efeitos disso, com milhões de desempregados e pessoas sendo despejadas das suas casas.

Mais uma vez, assim como na crise de 1929, e em inúmeras outras pelo mundo, o sistema criado pelas instituições financeiras mostrou sua fragilidade e socializou os prejuízos. Isso porque, foi um programa do governo de Obama que interviu na situação e de forma cirúrgica salvou a economia local e mundial. O programa conhecido como TARP (Troubled Asset Relief Program, ou Programa de Alívio de Ativos Problemáticos) injetou US$ 700 bilhões para salvar a economia, dinheiro que veio do bolso dos contribuintes. 

A AIG (America International Group), uma das maiores seguradoras do mundo, recebeu algo em torno de US$ 170 bilhões do plano TARP e menos de um ano depois estava pagando aos seus executivos um total de US$ 165 milhões em bônus. Essa história é emblemática para perceber como esse período foi de privatização dos lucros e socialização dos prejuízos.

As mesmas unidades de negócios que trouxeram o mundo a maior crise depois da de 1929 estavam recebendo bônus, que se não eram ilegais, eram pelo menos imorais e desrespeitosos com a população pagadora de impostos que arcou com os custos do TARP. E é sobre essa falta de poder que os cidadãos têm que discorre boa parte do manifesto cypherpunk que defende dar poder aos oprimidos e tirar poder dos opressores.

Paralelo ao resgate que os congressistas americanos proporcionaram ao mercado, uma nova tecnologia que propunha acabar com a necessidade de intermediários nas transações financeiras surgia em uma lista de e-mail restrita apenas aqueles que tentavam ou já haviam tentando realizar essa façanha. 

A partir daqui você já deve saber o que aconteceu. Satoshi Nakamoto, um pseudônimo em um fórum online, propõe uma alternativa de dinheiro digital sem a necessidade de intermediários que completou 11 anos no dia 31 de outubro deste ano.

Parabéns Satoshi. E obrigado.